O aumento alarmante de casos — que mais do que duplicaram num curto espaço de dois anos — levou o Governo a avançar com uma resposta clínica diferenciada para apostadores e jogadores de videojogos.
A paisagem das dependências em Portugal está a mudar e o sistema público de saúde prepara-se para acompanhar essa evolução. O Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências (ICAD) anunciou a abertura, até ao próximo verão, do primeiro centro especializado exclusivamente no tratamento da dependência do jogo. Localizada em Lisboa, esta unidade marca um corte com o modelo tradicional de tratamento, separando estes pacientes das unidades vocacionadas para o consumo de substâncias ilícitas.
Uma explosão de pedidos de ajuda
Os números não deixam margem para dúvidas sobre a urgência desta medida. Segundo dados revelados pelo ICAD, o volume de utentes a necessitar de apoio clínico disparou 118% num intervalo de apenas dois anos. Se em 2023 foram registados 358 pedidos de acompanhamento, o ano passado fechou com um total de 782 casos reportados.
Em declarações ao semanário Expresso, a direção do ICAD sublinha que a natureza do vício do jogo exige uma abordagem terapêutica específica. Ao contrário da toxicodependência, esta "patologia invisível" requer protocolos clínicos distintos, o que justifica a criação de uma equipa dedicada e de um espaço próprio.
O perfil do jogador: do ecrã às apostas
O diagnóstico do instituto traça um perfil claro dos grupos mais vulneráveis, onde o género masculino é o mais afetado:
Videojogos: A dependência foca-se sobretudo em jovens que frequentam o 3.º ciclo do ensino básico.
Jogos de Dinheiro: O risco é maior na faixa etária entre os 15 e os 34 anos.
Um dos maiores desafios apontados pelas autoridades é a falta de autoperceção do problema. Grande parte dos indivíduos que sofrem desta perturbação não reconhece o vício de forma voluntária, chegando às consultas apenas após o "empurrão" determinante de amigos ou familiares preocupados com a degradação financeira e social do paciente.
Com a equipa técnica já constituída, o novo centro de Lisboa será o primeiro passo de uma estratégia pública que tenta travar as consequências de um mercado de apostas e entretenimento digital em constante expansão.