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Carla resiste no Pinhal do Rei de “olhar esquivo” e coração despedaçado
Publicado em 27/04/2026 09:02
Local
Marinha Grande

A imagem de Carla Marrazes, de 52 anos, a puxar uma bicicleta carregada de lenha e pinhas, tornou-se o retrato fiel do desalento que atravessa a Marinha Grande. Para os habitantes das Gaeiras, o Pinhal do Rei já não é o refúgio de outrora, mas um cenário de "cicatrizes abertas" que muitos, como Carla, evitam encarar de frente.

“Ando à lenha, mas é de coração despedaçado e sempre a olhar para o chão”, confessa à Lusa. A força dos ventos recentes, que somaram prejuízos de 143 milhões de euros no concelho, arrancou e partiu milhares de pinheiros adultos, destruindo o horizonte de quem cresceu a usar as dunas como escorregas e as sombras das "árvores gigantes" como proteção.

O fim de uma barreira natural Desempregada, Carla encontra no que resta da mata o sustento para enfrentar um inverno que antevê rigoroso. Sem a barreira natural do pinhal para travar as rajadas vindas da costa, a recolha de lenha e "pinhocas" é agora uma corrida contra o tempo e contra o esquecimento. "Dói muito. Ainda agora tive de fechar os olhos para não enfrentar os pinheiros partidos", revela, visivelmente emocionada.

A desolação é partilhada por outros residentes, como João Pedro, de 57 anos, que lamenta a perda dos trilhos de corrida e a ausência de sombras. Para os locais, a regeneração da mata é uma promessa a longo prazo que poderá demorar mais de três décadas a concretizar-se — um tempo que muitos sentem já não ter.

O perigo que espreita Além do custo emocional e económico, a acumulação de madeira caída faz ressurgir o espetro dos incêndios, uma palavra que os habitantes evitam pronunciar, mas que paira sobre a região. Apesar dos trabalhos de limpeza de aceiros em curso, o sentimento dominante é de perda irreparável. Para Carla Almeida, outra habitante que ali passeia o seu cão, o pinhal era "casa" e "alimento para a alma", algo que a força da natureza e a passagem do tempo transformaram num rasto de memórias partidas.

Fonte:Lusa / Foto:Carlos Barroso

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