Brasília, 16 jun 2026 (Lusa) — O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, defendeu hoje, durante a sua intervenção na cimeira do G7, que as estratégias internacionais de combate ao narcotráfico têm obrigatoriamente de salvaguardar a soberania dos países onde as organizações criminosas operam. Discursando na sessão alargada do encontro das maiores economias mundiais, que decorre em Évian-les-Bains, em França, o chefe de Estado brasileiro sublinhou que a repressão ao crime organizado transfronteiriço deve ser integrada nas metas globais de desenvolvimento.
Ainda que tenha classificado como "um passo positivo" a tomada de posição dos líderes do G7 sobre o mercado das drogas, Lula da Silva considerou que a abordagem atual peca por escassez. Para o governante, a resposta das autoridades não pode focar-se apenas nos estupefacientes, devendo articular-se de forma direta com o combate ao tráfico de armamento e aos esquemas de branqueamento de capitais. Nesse sentido, sugeriu o estreitamento da cooperação através de canais como a Interpol para asfixiar os fluxos financeiros e capturar os líderes destas redes.
Esta declaração surge num momento de fricção diplomática, semanas após o Governo dos Estados Unidos ter rotulado o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — as duas principais fações criminosas brasileiras — como organizações terroristas globais, uma designação que colidiu com a visão de Brasília. Apesar do contexto, Lula evitou fazer alusões diretas à administração norte-americana ou ao Presidente Donald Trump, que assistia ao evento.
O discurso do líder brasileiro estendeu-se à geopolítica e à economia global, com duras críticas ao crescimento das correntes protecionistas e unilaterais, que classificou como "respostas falaciosas" para os desafios do presente. Lula da Silva aproveitou ainda para visar a extrema concentração de capitais, deixando uma farpa indireta ao magnata Elon Musk ao assinalar que "o primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial", fruto de "décadas de políticas pró-bilionários" que contrariam as metas da Organização das Nações Unidas.
O Presidente alertou também para o desinvestimento gritante nos pilares do multilateralismo e do apoio social. Segundo os dados expostos por Lula, a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento recuou mais de 20% no último ano, enquanto agências vitais sofreram cortes severos: o Programa Alimentar Mundial perdeu cerca de 40% das suas verbas, e tanto a Organização Mundial da Saúde como a Unicef viram os seus orçamentos encolher mais de um quinto. "Não são cifras abstratas", avisou, lembrando o impacto real destes cortes na saúde, alimentação e educação dos países mais desfavorecidos.
A fechar a sua intervenção, o governante apelou a uma reforma no financiamento climático e a uma distribuição justa da inovação digital, incluindo a inteligência artificial, de modo a evitar que a transição ambiental replique as assimetrias históricas entre as nações. Defendeu, por isso, que os países ricos em minerais essenciais para a transição energética não fiquem remetidos à mera extração, participando ativamente nos processos industriais de maior valor acrescentado.