Lisboa, 17 jun 2026 (Lusa) – Num país onde o Multibanco é uma miragem para quase metade das populações locais, o Governo desenhou uma estratégia fora da caixa. Nas freguesias mais pequenas onde não seja viável instalar caixas automáticas tradicionais, serão as próprias Juntas de Freguesia a entregar dinheiro "vivo" aos cidadãos que precisem de fazer levantamentos.
A medida foi revelada esta quarta-feira pelo ministro da Economia, Castro Almeida, durante uma audição na comissão parlamentar da Reforma do Estado e Poder Local. O Executivo está a desenhar este plano em parceria com a Associação Portuguesa de Bancos (APB), o Banco de Portugal e a SIBS. O grande objetivo é resolver a falta de acesso a numerário que afeta, segundo estimativas, mais de 1200 freguesias portuguesas, com dados da associação Denária a apontarem que cerca de 41% do território nacional não tem qualquer ponto de acesso a dinheiro físico.
O governante explicou que o plano terá duas velocidades, dependendo da dimensão da localidade: nas freguesias maiores, o objetivo passa pela instalação das habituais máquinas Multibanco; já nas mais pequenas, serão colocadas pequenas plataformas que permitem fazer quase todas as operações, como pagamentos de serviços, exceto dar dinheiro. É exatamente nessas terras com menos habitantes que o projeto prevê que sejam as juntas de freguesia a entregar o dinheiro físico aos residentes que queiram fazer levantamentos.
Esta solução promete levantar polémica. No passado, a Associação Nacional de Freguesias (Anafre) — que tem feito desta carência uma das suas principais bandeiras de luta, tendo até aprovado uma moção sobre o assunto no seu congresso de janeiro — já tinha manifestado fortes dúvidas sobre a capacidade de as juntas de freguesia adiantarem dinheiro aos cidadãos.
Aproveitando a presença no Parlamento, Castro Almeida anunciou ainda que o Governo está a preparar um novo Código Autárquico. A meta é reunir, atualizar e uniformizar a vasta legislação do poder local, acabando com a atual pulverização legislativa que complica o trabalho diário de autarcas e funcionários. O ministro da Economia assumiu o compromisso de levar este documento à apreciação da Assembleia da República antes do fecho da atual legislatura.