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Para Javier Cercas “o centro da literatura é o leitor”
O prestigiado escritor espanhol defendeu no Porto que o foco no autor é uma "superstição romântica" e apontou a humildade como uma ferramenta essencial de sobrevivência na escrita.
Por Redação
Publicado em 27/06/2026 09:59
Cultura
@Lusa

Porto, 27 de junho de 2026 (Lusa) — O escritor espanhol Javier Cercas alertou para a existência de um “mal-entendido fundamental” na forma como a sociedade contemporânea encara a criação literária, criticando a tendência generalizada de colocar o foco e o mediatismo no autor em detrimento de quem consome a obra.

A reflexão foi partilhada na noite de sexta-feira durante um debate com o autor colombiano Héctor Abad Faciolince, moderado pelo jornalista João Gobern na Praça Gomes Teixeira, no Porto, no âmbito do festival Babell. Perante uma plateia repleta, o criador de Soldados de Salamina assumiu esta posição como uma das convicções mais sólidas da sua carreira. "O autor não é o protagonista da literatura. O protagonista da literatura é o leitor", sentenciou, classificando a visão oposta como uma mera herança do Romantismo.

Para o romancista, o fenómeno literário assemelha-se a uma "partitura", cuja magia reside na capacidade que cada pessoa tem de a interpretar de forma única. "Um livro sem leitores é letra morta. Isto não é populismo, detesto o populismo em todas as suas facetas, mas sobretudo o populismo literário. Isto é a realidade", frisou.

Num tom autocrítico em que se descreveu como "espantosamente egoísta", Cercas desmontou o mito de que o sucesso na escrita exige arrogância. Pelo contrário, defendeu que os autores mais marcantes que conheceu partilham uma profunda modéstia, lembrando que já testemunhou carreiras brilhantes serem arruinadas por vaidade excessiva. "Condição fundamental para um escritor é a uma humildade. Qual é o nosso papel? Trabalhar muito e quando se acaba um livro rezar para que alguém goste", afirmou.

A sessão ao ar livre foi pontuada por momentos de descontração, com o autor espanhol a questionar se os ruídos da animação noturna portuense que ecoavam no local estariam relacionados com os jogos de futebol. No plano concetual, Cercas recorreu ao pensamento do italiano Cesare Pavese para resumir a utilidade da palavra escrita, definindo-a como "um instrumento de defesa contra as ofensas da vida".

O festival Babell estende-se até à próxima segunda-feira, trazendo à Invicta nomes grandes das letras mundiais como Olga Tokarczuk, Salman Rushdie e Margaret Atwood. A iniciativa cultural conta com um investimento superior a três milhões de euros suportado pela fundação da Livraria Lello, em coorganização com a Câmara Municipal do Porto.

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