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Dwayne Betts leva o impacto transformador da literatura a prisões “uma de cada vez”
O escritor e ativista norte-americano partilhou no Porto a sua história de superação e o sucesso do projeto Freedom Reads, que já instalou 500 bibliotecas em estabelecimentos penitenciários.
Por Redação
Publicado em 28/06/2026 20:07
Cultura
@Lusa

Porto, 28 de junho de 2026 (Lusa) — O poeta e ativista norte-americano Dwayne Betts destacou hoje, no Porto, o papel crucial dos livros na reinserção social. Convidado do festival literário Babell, o autor partilhou os contornos do projeto Freedom Reads, uma iniciativa que visa introduzir bibliotecas em estabelecimentos prisionais, demonstrando como o acesso à escrita pode redefinir o percurso de quem se encontra privado de liberdade.

Com 45 anos, Betts acumula as funções de advogado, educador e defensor da reforma penal nos Estados Unidos. Numa conversa conduzida por Raquel Marinho na Praça Gomes Teixeira, o autor revisitou o seu passado: aos 16 anos foi condenado a uma pena de nove anos por assalto à mão armada, tendo sido precisamente no isolamento da cela que despertou para a leitura e para a ambição de se tornar escritor. À saída, licenciou-se em Poesia e Direito, convertendo as suas vivências na missão da sua vida.

"Alguém me perguntou o que seria eu se o dinheiro não fosse questão. Disse que, se não fosse pelo dinheiro, e dado que metemos milhões de pessoas na prisão, então meteria milhões de livros nas prisões, uma biblioteca de cada vez", recordou o poeta. Desde a sua fundação em 2020, a Freedom Reads já concretizou cerca de meio milhar de intervenções em prisões norte-americanas, contando inclusive com uma equipa onde 40% dos colaboradores são antigos reclusos, promovendo assim a criação de carreiras para quem enfrenta o estigma do pós-carcere.

Durante a sessão, Dwayne Betts declamou poemas e partilhou os desafios de aproximar a literatura das franjas mais vulneráveis da sociedade, sobretudo num contexto de crise económica global. Para o ativista, a leitura dota os reclusos de ferramentas analíticas essenciais para tomarem melhores decisões quando recuperarem a liberdade. O público portuense terá uma oportunidade acrescida de conhecer a sua obra na próxima segunda-feira, pelas 12h00, no Clube dos Fenianos, com o lançamento de Doggerel, a primeira coletânea de poemas do autor traduzida em Portugal, numa parceria com a Universidade do Porto.

Apesar da relevância do testemunho, a sessão ao ar livre registou uma afluência modesta de algumas centenas de pessoas, contrastando com as plateias esgotadas de mais de 1600 espetadores que, no dia anterior, assistiram às conferências das escritoras Margaret Atwood e Olga Tokarczuk. A organização enfrentou ainda contratempos técnicos na primeira metade do evento, devido a falhas recorrentes no sistema de legendagem automática gerada por inteligência artificial.

O festival Babell, que encerra na segunda-feira, representa um investimento superior a três milhões de euros por parte da fundação da Livraria Lello, em coorganização com a Câmara Municipal do Porto. O programa deste domingo prossegue com momentos de alto perfil, destacando-se a intervenção do Nobel da Literatura László Krasznahorkai e o encontro com Salman Rushdie no Coliseu do Porto, este último sujeito a um forte e rigoroso dispositivo de segurança.

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