Há mais de duas décadas que o Programa Aconchego, promovido pelo Município do Porto, aproxima estudantes que procuram alojamento de seniores que têm espaço em casa e procuram companhia. A iniciativa tornou-se uma resposta ao isolamento na terceira idade e, ao mesmo tempo, numa oportunidade para jovens encontrarem uma solução habitacional enquanto estudam na cidade.
Maria José, carinhosamente conhecida pela família como “Babá”, é um dos exemplos desta experiência. Aos 102 anos, vive na Baixa do Porto e participa no programa praticamente desde a sua criação, tendo acolhido ao longo dos anos vários estudantes em sua casa.
Para os filhos, José António e Álvaro, a participação da mãe surgiu também como uma forma de combater a solidão. Apesar de contar com o apoio da família, as responsabilidades profissionais e familiares nem sempre permitiam que estivessem presentes tanto quanto gostariam.
Ao longo de mais de 20 anos, vários jovens passaram pela casa de Maria José e alguns acabaram por criar relações de amizade muito próximas com a centenária. Atualmente, é Giulia, estudante de Arquitetura, quem partilha a casa com ela e lhe proporciona companhia no dia a dia.
A jovem mantém-se também atenta ao estado de Maria José e, sempre que considera necessário, contacta a família para transmitir alguma preocupação ou alteração que tenha notado. Para os familiares, esta atenção demonstra a importância da relação que se estabelece entre os participantes.
A família considera que o sucesso do programa depende igualmente da capacidade de respeitar a personalidade e a individualidade de cada estudante. Ao longo dos anos, alguns dos jovens que passaram pela casa acabaram por criar laços tão próximos que participaram em momentos familiares, chegando mesmo a passar o Natal com Maria José e os seus filhos.
Também Maria Luísa, de 90 anos, encontrou no Programa Aconchego uma forma de combater a solidão. Depois da morte do marido, sentiu-se particularmente sozinha e, em 2012, decidiu aderir à iniciativa municipal, recebendo em casa, na Foz do Douro, uma estudante de Direito.
A experiência foi tão positiva que, mesmo depois de a jovem terminar os estudos e regressar à sua terra natal, as duas mantiveram o contacto. Mais tarde, Maria Luísa recebeu familiares em casa, mas quando estes seguiram as suas próprias vidas voltou a sentir a ausência de companhia.
Com uma vida ativa e marcada pela dedicação à família e ao voluntariado, nomeadamente no Instituto Português de Oncologia do Porto, a sénior decidiu voltar a procurar o programa. Este ano, contactou novamente o Município do Porto para saber se a iniciativa continuava disponível e acabou por conhecer Inês, estudante de Medicina.
Sempre que a sua rotina académica permite, Inês janta com Maria Luísa e fica algum tempo a conversar com ela. Para a sénior, estes momentos representam muito mais do que simples companhia. Saber que regressará a casa e encontrará alguém ajuda a tornar os dias mais tranquilos.
Maria Luísa mantém uma rotina independente, gosta de caminhar junto ao mar e de estar com a família, mas reconhece que a presença de Inês trouxe uma nova dinâmica à sua casa. A jovem é descrita como carinhosa e atenta, características que reforçaram a ligação entre ambas.
O Programa Aconchego demonstra, assim, como a partilha de uma habitação pode criar benefícios para ambas as gerações. Os estudantes encontram uma alternativa de alojamento e os seniores ganham companhia, segurança e novas relações de proximidade.
Mais do que uma solução habitacional, a iniciativa transformou-se numa forma de aproximar gerações e combater a solidão através da convivência diária. Em muitos casos, os laços criados ultrapassam o período de coabitação e permanecem ao longo dos anos.