No seu discurso final de abertura do debate anual das Nações Unidas, António Guterres despediu-se do cargo de secretário-geral com um apelo contundente focado nos desafios da era digital. A cerca de três meses de terminar o seu segundo mandato na liderança da organização, o responsável máximo da ONU concentrou grande parte da sua intervenção nas ameaças associadas ao avanço desmedido da inteligência artificial (IA), defendendo a criação urgente de um ecossistema de regulação global.
Perante os líderes mundiais reunidos em Nova Iorque, Guterres enfatizou que as potências tecnológicas e as grandes empresas do setor têm a obrigação moral de partilhar riscos e estabelecer limites rigorosos. O diplomata português sublinhou que a tomada de decisões críticas — em particular as que envolvem a vida humana e o uso de armamento autónomo — jamais deve ser delegada a algoritmos ou máquinas. Para mitigar o impacto de sistemas não supervisionados, propôs a implementação de uma estrutura multilateral de gestão de riscos com fiscalização independente.
A par do alerta tecnológico, a intervenção ficou marcada por um tom de balanço pessoal e institucional. Guterres recordou as origens da ONU como um símbolo de resistência e cooperação internacional, admitindo, contudo, que o cenário geopolítico atual se encontra substancialmente mais degradado e instável do que quando assumiu funções em 2017.
Com o processo de sucessão já em marcha — e com vários países a defenderem a escolha inédita de uma mulher para o cargo —, o diplomata prometeu manter-se ativo na defesa da paz, do direito internacional e dos direitos humanos após o término das suas funções a 31 de dezembro, confirmando ainda o seu regresso a Portugal.
Fonte - Lusa / Sic Notícias