Taipé, 19 mai 2026 (Lusa) — A moção de destituição apresentada contra o Presidente de Taiwan, William Lai, foi hoje rejeitada no parlamento por não ter alcançado o quórum mínimo exigido para a sua aprovação. Segundo avançou a agência de notícias oficial CNA, o desfecho já era antecipado tendo em conta a atual correlação de forças na câmara legislativa.
A iniciativa recolheu o voto favorável de 56 deputados, um número substancialmente abaixo dos 76 apoios necessários — que correspondem à maioria qualificada de dois terços imposta pela legislação — para que o processo seguisse em frente.
À margem da sessão de votação, o primeiro-ministro taiwanês, Cho Jung-tai, manifestou em conferência de imprensa a intenção de que os laços entre o Executivo e as forças da oposição possam evoluir "da adversidade para a prosperidade". O governante sublinhou ainda o compromisso do Governo em continuar a promover a reconciliação e o diálogo construtivo entre os diferentes quadrantes políticos.
Esta tentativa de destituição presidencial, que constitui um marco inédito na história constitucional da ilha, foi desencadeada no final do ano passado pelo Kuomintang (KMT) e pelo Partido Popular de Taiwan (PPT). Juntas, as duas forças da oposição controlam 62 dos 113 assentos do parlamento.
O pomo da discórdia prendeu-se com a recusa do Presidente William Lai em promulgar um projeto de lei setorial. A referida proposta, desenhada pela oposição, visava aumentar a fatia das receitas fiscais canalizadas para as autarquias locais, uma medida que beneficiaria diretamente as administrações geridas pelo KMT, partido que lidera as quatro autarquias mais populosas de Taiwan: Taipé, Nova Taipé, Taichung e Taoyuan. A recusa governamental em validar o diploma foi classificada pela oposição como uma violação da ordem constitucional.
Apesar do desfecho previsível da votação, o agendamento da moção evidencia o clima de crispação institucional que se instalou desde a tomada de posse de Lai, em maio de 2024, caracterizado por um parlamento que tem travado ou alterado de forma sistemática as principais reformas do Executivo.
Um reflexo claro deste bloqueio ocorreu no passado dia 8 de maio, com a aprovação de um orçamento especial para a Defesa fixado em 780 mil milhões de dólares taiwaneses (cerca de 21 mil milhões de euros) até 2033, destinado à compra de armamento aos Estados Unidos. O valor final aprovado representa apenas dois terços do montante inicialmente submetido pelo Governo no final de 2025, que ascendia a 1,25 biliões de dólares taiwaneses e incluía verbas para o desenvolvimento da indústria militar interna.
O Executivo já alertou que o corte imposto pelo KMT e pelo PPT poderá criar debilidades estruturais na capacidade de combate da ilha, num momento marcado pelo agravamento das tensões com Pequim, que continua a reivindicar Taiwan como parte integrante do seu território.