Pequim, 09 jun 2026 (Lusa) — Um estudo recente publicado pela Brookings Institution revela que o conflito armado que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irão acabou por reverter num forte benefício estratégico para a China. Segundo o grupo de reflexão (think tank) sediado em Washington, a guerra expôs as debilidades do poder norte-americano, aprofundou o fosso entre a Casa Branca e os seus aliados tradicionais e deu espaço para Pequim consolidar a sua liderança à escala global.
Ryan Hass, diretor do Centro John L. Thornton para a China da Brookings e antigo conselheiro do Presidente Barack Obama, sintetiza o cenário de forma clara no artigo assinado hoje: "Os Estados Unidos e Israel combateram o Irão, e a China venceu". O analista esclarece que a liderança chinesa viu confirmada a sua teoria de que não necessita de um confronto militar direto com Washington para ascender e ganhar terreno na ordem internacional.
O investigador rebate a tese de quem defendia que o ataque ao Irão iria asfixiar o fornecimento de crude a Pequim — que garantia em Teerão cerca de 13% das suas importações de petróleo com desconto — ou enfraquecer a rede de parceiros asiáticos. Apoiado nos argumentos do historiador Robert Kagan, Hass lembra que o regime iraniano mantém intacta a sua capacidade de desestabilizar a economia mundial através do Estreito de Ormuz, uma rota energética vital, podendo sair desta crise ainda com maior peso político.
No xadrez geopolítico, a China assiste ao desgaste financeiro e militar dos EUA numa nova frente de batalha, enquanto resguarda os seus próprios recursos para a corrida que considera verdadeiramente crucial para o século XXI: o domínio tecnológico. Para Pequim, assumir o papel de garante da segurança ou procurar a hegemonia no Golfo Pérsico traria encargos financeiros incomportáveis. A estratégia chinesa passa antes por manter canais diplomáticos abertos com todas as capitais da região, sem assumir responsabilidades militares.
Apesar de a guerra trazer ameaças reais a Pequim, como a subida dos preços dos combustíveis e o risco de uma recessão económica global, o balanço final pende a favor da potência asiática. O relatório detalha que a China já está a substituir o papel histórico dos EUA no Sudeste Asiático, fornecendo combustível de aviação e energia a aliados americanos como as Filipinas e a Tailândia. A médio prazo, a crise energética global deverá acelerar a procura por tecnologias de transição ecológica — um mercado dominado de forma esmagadora pelas empresas chinesas em setores como os painéis solares, baterias e automóveis elétricos.
Por fim, o perito aponta que o conflito gerou fortes divergências entre os EUA e os seus parceiros na Europa e no Médio Oriente quanto à legitimidade das operações militares. Essa quebra de coesão ocidental joga a favor de Pequim, que poderá capitalizar as fragilidades americanas noutros tabuleiros. Com Washington focado em conter o Irão, parceiros asiáticos temem que os EUA percam o fôlego ou a vontade política para defender Taiwan perante uma eventual investida da China continental, ainda que Hass considere improvável uma mudança de estratégia militar de curto prazo por parte de Pequim, que continua a preferir a via da pressão económica e da integração progressiva da ilha.