Praia, 12 jun 2026 (Lusa) — Vários imigrantes africanos residentes em Cabo Verde denunciam dificuldades de integração, empregos precários e falsas promessas que os levaram a abandonar os seus países de origem, muitas vezes alimentados pela expectativa de melhores condições de vida ou pela possibilidade de alcançar a Europa.
Uma mulher nigeriana, que chegou ao arquipélago há cerca de dez meses, contou à Lusa que vendeu o carro e pagou 800 euros a uma intermediária que lhe garantiu trabalho e alojamento como cuidadora de idosos. No entanto, ao chegar à cidade da Praia, não encontrou ninguém à sua espera.
Sem contactos e sem dominar o crioulo, passou semanas a procurar ajuda e emprego. Com o apoio da comunidade africana residente no país, conseguiu mais tarde trabalho como empregada doméstica, com contrato e inscrição na segurança social cabo-verdiana.
Outros imigrantes relatam experiências semelhantes. Muitos dizem ter sido convencidos por familiares, amigos ou intermediários de que Cabo Verde oferecia salários elevados e oportunidades abundantes, mas acabaram inseridos no setor informal, sem contratos de trabalho, proteção social ou garantias de pagamento.
Trabalhadores oriundos da Guiné-Bissau afirmam que a realidade encontrada foi muito diferente daquela que lhes tinha sido prometida. Alguns exercem funções na construção civil, com remunerações reduzidas, atrasos frequentes nos salários e condições de trabalho difíceis, muitas vezes sem equipamentos de proteção adequados.
Associações representativas das comunidades africanas denunciam a existência de redes fraudulentas que recrutam pessoas nos países de origem, cobrando quantias elevadas e prometendo empregos, documentação ou até facilidades para chegar posteriormente à Europa.
Segundo responsáveis associativos, muitos imigrantes acabam por aceitar situações de exploração devido à necessidade de sustentar as famílias que ficaram nos seus países, enfrentando ainda dificuldades relacionadas com a língua, discriminação e desconhecimento dos seus direitos.
O inspetor-geral do Trabalho de Cabo Verde reconhece que existem riscos associados à intermediação irregular de mão-de-obra, sobretudo no setor da construção civil, marcado pela informalidade e elevada rotatividade dos trabalhadores. Ainda assim, garante que as autoridades têm reforçado a fiscalização em articulação com outras entidades competentes.
Apesar destes relatos, o país continua a enfrentar falta de mão-de-obra em vários setores. O Governo cabo-verdiano tem defendido a necessidade de melhorar os mecanismos de recrutamento e integração de trabalhadores estrangeiros, numa altura em que muitos cabo-verdianos continuam a emigrar à procura de melhores oportunidades, sobretudo para países como Portugal.