Lisboa, 16 jun 2026 (Lusa) — O Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, apelou hoje a que a Europa adote uma postura permanente e contínua de reforma estrutural, elegendo a finalização do mercado único como a prioridade absoluta para estimular a inovação e desenhar um ecossistema mais propício ao desenvolvimento corporativo.
As declarações foram proferidas em Lisboa, durante um painel de debate dedicado à economia do bloco europeu no âmbito da iniciativa “The Lisbon Conference”, promovida pelo canal Now. Na sua alocução, que decorreu em língua inglesa, o antigo ministro português frisou que a consolidação do mercado único é vital "para aumentar a resiliência e a robustez" da economia, permitindo simultaneamente que a inovação floresça e as empresas encontrem um ambiente de negócios mais vantajoso.
Álvaro Santos Pereira partilhou o palco com outras figuras de relevo do panorama internacional, entre as quais Klaus Regling, ex-diretor-geral do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Valentino Valentini, vice-ministro da Economia de Itália, e Phil Hogan, antigo comissário europeu responsável pelas pastas da Agricultura e do Comércio.
Para o líder do banco central português, um dos grandes entraves que o Velho Continente enfrenta reside na ausência de uma mentalidade reformista contínua, a par dos desafios de integração entre os vários Estados-membros. "Não estamos a fazer o que os melhores países fazem, ou seja, adotar uma atitude de reforma que seja sempre insaciável", criticou o responsável, sustentando que a insatisfação com o ponto de situação atual deve servir de motor para uma busca constante pela melhoria. Lamentou ainda que, historicamente, os processos de reforma na Europa tendam a transformar-se em focos de conflito político, tanto na esfera doméstica como no plano comunitário, prejudicando a coesão do espaço comum.
O Governador alertou para o facto de a Europa estar a desperdiçar o seu verdadeiro potencial económico, especialmente numa altura em que o mundo atravessa a revolução da Inteligência Artificial (IA), tecnologia que antecipa um incremento expressivo da produtividade global. Santos Pereira advertiu que, embora se viva um ciclo de forte criatividade tecnológica, o continente falha em deixar a inovação prosperar, uma debilidade que se torna evidente na escassez de capital disponível para as empresas investirem e expandirem os seus negócios. O panorama agrava-se, na sua perspetiva, pelo facto de a distância competitiva face aos Estados Unidos se ter acentuado nos últimos cinco anos devido a dinâmicas anteriores à IA, um fosso que a nova vaga tecnológica corre o risco de aprofundar.
A fechar a sua intervenção, e quando confrontado pelo moderador do debate — José Barreto, parceiro na Goldman Sachs — sobre se a Europa se encontra hoje mais bem protegida para gerir uma eventual crise financeira ou um choque de dívida soberana face ao cenário de 2010, Álvaro Santos Pereira respondeu de forma categórica. "Sem dúvida", afiançou, justificando que a arquitetura europeia conta agora com mecanismos de supervisão, regulação e resolução bancária substancialmente mais sólidos e robustos do que aqueles que existiam há 15 anos.