Lisboa, 19 de junho de 2026 (Lusa) — A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) prestou assistência a um total de 169 cidadãos refugiados que foram alvo de infrações criminais e atos violentos entre os anos de 2021 e 2025. Os indicadores publicados hoje pela organização revelam um salto expressivo de 287,5% no volume de atendimentos quando comparado o último ano do balanço com o ponto de partida do levantamento estatístico.
O relatório, lançado em antecipação ao Dia Mundial dos Refugiados que se assinala este sábado, expõe uma tendência clara de subida na procura por este suporte especializado. No ano de 2025, a APAV acompanhou 120 casos, um número que supera em mais do triplo as 31 ocorrências validadas inequivocamente em 2021. Olhando para a cronologia do quinquénio, após os 31 registos iniciais, a curva de apoios subiu para 85 em 2022, sofreu uma contração acentuada para 14 em 2023, voltou a crescer para 69 em 2024 e fixou o seu pico mais alto no ano transato.
O universo de utentes acolhidos pela associação ao longo destes cinco anos é composto predominantemente por mulheres, que representam 71% do total de sinalizações, ao passo que os homens equivalem a cerca de 27%. No que diz respeito à distribuição geográfica por continentes de origem, os cidadãos europeus destacam-se largamente ao concentrarem 78,7% dos processos, seguidos por pessoas oriundas da Ásia (12,4%), de África (5,3%) e do continente americano (3,6%).
Estes números espelham de forma direta as consequências humanitárias da guerra na Ucrânia. Do total de 169 pessoas assistidas pelas equipas da APAV, 117 possuíam nacionalidade ucraniana, o que corresponde a 69,2% da amostra global. Relativamente às faixas etárias, a grande maioria dos refugiados apoiados situava-se na idade adulta (entre os 18 e os 64 anos), embora as equipas tenham também intervindo junto de menores de 17 anos e de idosos com 65 ou mais anos.
No topo das tipologias de crime identificadas situa-se a violência doméstica, constituindo a motivação principal para o pedido de intervenção. Entre as 349 manifestações de criminalidade contabilizadas pela associação neste grupo, 284 enquadraram-se nesta categoria. O restante rol de crimes reportados engloba 21 episódios de violência genérica, 16 agressões de cariz sexual, oito ofensas à integridade física, sete situações de coação ou ameaça, sete crimes de difamação ou injúria e seis delitos relacionados com o património material.
Quando foi possível apurar a identidade e o género dos presumíveis agressores, os dados indicam que a larga maioria (68%) corresponde a indivíduos do sexo masculino. No campo das dinâmicas relacionais entre a vítima e o agressor, a ligação mais recorrente liga as vítimas a madrastas ou padrastos (34,7%), surgindo depois os cônjuges (12,4%), companheiros (4,1%), conhecidos (4,1%) e ex-parceiros (2,9%).
O relatório põe ainda em evidência um forte sentimento de subnotificação: em mais de metade dos episódios geridos pela APAV (58,6%), as vítimas optaram por não formalizar uma queixa ou participação junto das instâncias policiais, tendo apenas 28,4% avançado com uma denúncia oficial. A fechar o documento, a associação sublinha que os dados demonstram que a vulnerabilidade destas pessoas se mantém mesmo após alcançarem o país de acolhimento, reforçando a urgência de manter e especializar os mecanismos nacionais de proteção social.