Lisboa, 30 jun 2026 (Lusa) — O contingente de cidadãos inscritos no Serviço Nacional de Saúde (SNS) que carecem de um médico de medicina geral e familiar averbou um crescimento superior a 65 mil indivíduos no decurso dos primeiros cinco meses do corrente ano, superando a fasquia de 53 mil novos registos de utilizadores validados na rede de cuidados primários em igual período. Os indicadores estatísticos vertidos no portal da transparência do Ministério da Saúde demonstram que esta franja de utentes desprovidos de clínico assistente escalou de 1.601.018 no arranque de janeiro para um total de 1.666.823 no encerramento do mês de maio. No plano macroeconómico do país, a área metropolitana de Lisboa e Vale do Tejo destaca-se de forma gravosa ao concentrar a esmagadora maioria deste défice de cobertura, fixando-se em 1.165.496 pessoas sem assistência médica personalizada, o que traduz um acréscimo de 35 mil cidadãos face a janeiro, num cenário que contrasta com a realidade da região Norte, que retém um indicador abaixo dos 100 mil indivíduos nessa condição.
A evolução histórica da última década evidencia que o patamar mais favorável de assistência foi atingido no outono de 2019, data em que o registo de portugueses sem médico atribuído se cifrava em pouco mais de 641 mil pessoas, ou seja, menos um milhão do que a realidade registada no presente mês de maio. Paralelamente ao acréscimo global de registos no sistema de saúde — que expandiu para lá dos 10,79 milhões de utentes —, o universo daqueles que contam com um profissional de referência atribuído nos centros de saúde recuou ligeiramente, sofrendo uma quebra que retirou mais de 12 mil pessoas deste universo protegido. Confrontada com este cenário, a titular da pasta da Saúde, Ana Paula Martins, atribuiu o acréscimo estatístico à própria capacidade de atração e flexibilidade do serviço público, argumentando que a demografia residencial do país acolhe atualmente cerca de 1,5 milhões de novos residentes comparativamente ao panorama verificado há cinco anos, exigindo um esforço de adaptação célere da máquina do Estado.
O enquadramento atual foi também objeto de uma análise de sustentabilidade por parte do Conselho das Finanças Públicas (CFP), que emitiu pareceres de alerta sobre as dinâmicas de envelhecimento que afetam o corpo clínico ligado aos cuidados de proximidade. Conforme sublinhado pela instituição de monitorização financeira, a perspetiva de curto prazo de passagens à reforma na especialidade de clínica geral ameaça exacerbar os estrangulamentos já patentes, impulsionando os cidadãos a recorrerem em primeira instância e de forma desregulada às urgências dos hospitais centrais por ausência de triagem primária. De forma a estancar a escassez de recursos humanos, o executivo promoveu no decurso do mês passado a abertura de concursos públicos com vista à colocação de 2.500 novos especialistas médicos, reservando 711 dessas posições para os cuidados de medicina geral e familiar, a que acrescem mais uma centena de vagas específicas destinadas a atrair profissionais para as regiões e concelhos identificados como de fixação mais carenciada no mapa nacional.