Vila Real, 12 jul 2026 (Lusa) — Passado precisamente um ano sobre o devastador incêndio que fustigou a serra do Alvão, a paisagem partilhada entre Vila Real e Mondim de Basto ensaia um lento regresso à vida. Onde antes dominava o negro absoluto da destruição, o verde dos pastos começa agora a ganhar terreno, o turismo dá sinais de retoma e a floresta está sob a mira de mais de uma centena de novas câmaras de videovigilância. Contudo, as feridas na comunidade e na terra tardam a fechar.
Pelas 11:00, sob um sol já abrasador, o pastor Carlos Peixoto conduz o seu rebanho de 75 cabras encosta acima. "Nem sábados, nem domingos, tem que se andar sempre ao pé delas", desabafa à agência Lusa. O fogo de agosto de 2025 poupou a sua aldeia, Arnal, mas deixou os animais sem sustento. Hoje, a comida voltou, mas o rebanho regressa à corte, ao fim do dia, "cheio de cinza". A desertificação humana agrava o perigo: Carlos recorda os tempos em que 1.500 cabeças de gado limpavam a serra; hoje, Arnal não chega aos 10 moradores. O impacto mudou vidas, como a de Diogo Oliveira, de Galegos da Serra, que se viu forçado a vender as suas 25 cabras por falta de monte limpo.
O incêndio, que deflagrou a 2 de agosto de 2025 em Sirarelhos e só deu tréguas a 13 de agosto, consumiu 5.947 hectares, incluindo 1.669 dentro do Parque Natural do Alvão (PNA). Um ano depois, os operadores económicos respiram um pouco melhor. O alojamento "Refúgio Muas Nature", que viu as reservas colapsarem devido à proximidade das chamas, recupera o fluxo de hóspedes, e a piscina de Lordelo — cuja água chegou a ser bombeada para o combate — vive um verão de grande procura.
O esforço de engenharia natural e prevenção tem sido massivo. Nos terrenos mais declivosos foram aplicadas barreiras contra a erosão e a autarquia de Mondim de Basto recorreu mesmo a drones para efetuar sementeiras aéreas e lançar feno para a fauna. Em termos de segurança, a Câmara de Vila Real investiu na instalação de 125 câmaras de alta definição na floresta, operadas diretamente pela Polícia Judiciária para dissuadir o fogo posto.
Apesar do esforço, os autarcas locais admitem que a regeneração total do ecossistema vai demorar décadas. O presidente da Câmara de Vila Real, Alexandre Favaios, defende uma revisão urgente do plano de ordenamento do PNA e da lei de limpeza de terrenos. Em Vila Marim, onde os prejuízos ainda estão a ser contabilizados, prepara-se uma grande reflorestação com árvores autóctones para o outono e a criação de uma Unidade Local de Proteção Civil com voluntários até 2027.
Mesmo ferido, o Alvão teima em atrair quem o visita. No recém-inaugurado miradouro das Fisgas de Ermelo, com vista para a icónica cascata de 400 metros, os turistas espanhóis Henrique e Nádia Carrera, que viajam de mota, contemplam a imponência da serra alheios ao drama do ano passado: "É tudo muito bonito, precioso". A autarquia de Mondim de Basto reforça o convite com a campanha "Há mais para explorar", lembrando que a beleza da serra resiste à passagem das chamas.