Berlim, 17 mai 2026 (Lusa) — A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, advertiu hoje que o Governo do Presidente norte-americano, Donald Trump, demonstra uma clara oposição à União Europeia (UE) por receio de que o bloco dos 27 Estados-membros, quando unido, se afirme como uma potência global de igual força.
As declarações da Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança foram feitas numa entrevista durante a Conferência Lennart Meri, um fórum de política externa que decorre este fim de semana em Talin, na Estónia. Na sua análise, Kallas traçou um paralelo entre a postura de Washington e as estratégias da Rússia e da China, afirmando que estas potências partilham o mesmo objetivo de desmantelar o projeto comunitário.
A responsável europeia manifestou forte apreensão com a atitude de certos países da UE que tentam contornar o bloco e transmitir individualmente a Washington a ideia de que mantêm boas relações bilaterais. Para Kallas, esta postura é perigosa porque valida a estratégia norte-americana de fragmentação e enfraquece a força coletiva da Europa.
Paralelamente, a diplomata revelou preocupação com a degradação da imagem pública dos Estados Unidos junto dos cidadãos europeus. Sondagens recentes revelam que apenas 14% da população da UE encara o país transatlântico como um aliado. Ainda assim, Kallas pediu pragmatismo, sublinhando que as duas regiões permanecem profundamente dependentes uma da outra devido à interligação das suas economias e dos sistemas de segurança.
A liderança norte-americana foi também alvo de críticas contundentes no que toca ao processo de paz na Ucrânia, atualmente num impasse. Kallas acusou Washington de exercer pressão sobre Kiev para abdicar de territórios que as forças ucranianas nem sequer perderam no campo de batalha. A Alta Representante lamentou a tática de Donald Trump de tentar impor acordos forçando o confronto direto entre os rivais, lembrando que "um conflito não termina sem aceitação social".
Para a chefe da diplomacia, a estabilidade duradoura exige que se ataquem as raízes dos problemas e se garanta a justiça, sob pena de se perpetuarem ciclos de vingança. Kallas destacou ainda estudos que provam o impacto positivo e a durabilidade de acordos de paz quando há envolvimento de mulheres nas negociações, ironizando sobre o excesso de "masculinidade" visível nas reuniões de alto nível entre os EUA e a China.
A fechar, a responsável reiterou que a Europa deve manter uma pressão firme sobre a Rússia, forçando Moscovo a compreender que não conseguirá atingir as suas metas através de entendimentos exclusivos com Washington, sendo obrigada a negociar diretamente com Kiev e os parceiros europeus.