Madrid, 06 jun 2026 (Lusa) — O Papa Leão XIV aterra hoje em Espanha para uma viagem apostólica de contornos políticos sem precedentes. Ao longo de seis dias, o Sumo Pontífice vai quebrar um jejum de 15 anos sem visitas papais ao país, trazendo na bagagem uma agenda fortemente focada na crise migratória e na pobreza. O líder da Igreja Católica vai concretizar o antigo desejo do seu antecessor, Francisco, ao deslocar-se às Canárias, o arquipélago que serve de porta de entrada para milhares de migrantes vindos de África em embarcações precárias.
A chegada ao aeroporto Adolfo Suárez/Barajas, em Madrid, está marcada para as 10:30 (09:30 em Lisboa), onde Leão XIV será recebido pelos Reis Felipe VI e Letizia, e pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez. Segue-se uma receção oficial com honras de Estado no Palácio Real, palco do primeiro discurso público do Papa. O dia termina com uma grande vigília que deverá juntar centenas de quaisquer jovens no centro da capital espanhola.
O pendor social da visita faz-se sentir logo na tarde deste sábado, com uma deslocação a um centro da Caritas de apoio a sem-abrigo. A Conferência Episcopal Espanhola (CEE) já veio a público associar o aumento do número de pessoas sem teto à crise na habitação, à precariedade e à situação irregular de muitos migrantes. Os bispos espanhóis alinham-se, aliás, com o recente processo de regularização extraordinária de imigrantes promovido pelo governo socialista de Pedro Sánchez, que no mês passado encontrou uma "elevada sintonia" com o Papa no Vaticano sobre esta matéria.
Esta posição da Igreja promete agitar o ambiente político espanhol, fortemente polarizado. Um dos momentos mais aguardados da viagem acontece na segunda-feira, quando Leão XIV fizer um discurso inédito no parlamento espanhol, numa altura em que o clero local mantém um confronto aceso com a terceira força política do país, o Vox (de extrema-direita), precisamente devido às políticas de imigração.
O ponto alto da carga humanitária da viagem está reservado para os dias 11 e 12 de junho nas Canárias. O arquipélago enfrenta uma pressão migratória constante, tendo recebido 17.788 pessoas em 'pateras' no ano passado — após os recordes de quase 40 mil e 46 mil migrantes em 2023 e 2024, respetivamente. A deslocação assume também um tom de homenagem às vítimas daquela que a ONG Caminando Fronteras considera a rota mais mortífera do mundo, estimando em mais de 3.100 as mortes no mar só em 2025.
Antes de rumar às ilhas, o Papa passará por Barcelona na terça e quarta-feira. Na Catalunha, além de visitar reclusos numa prisão, Leão XIV terá uma agenda dedicada à arte ao inaugurar formalmente a Torre de Jesus Cristo na basílica da Sagrada Família, obra icónica de Antoni Gaudí que este ano se coroou como a igreja mais alta do mundo. A CEE admitiu ainda a possibilidade de o Pontífice se reunir em privado com vítimas de abusos sexuais na Igreja espanhola, encontros que só deverão ser divulgados após a sua realização.