Praia, 10 jul 2026 (Lusa) — O líder da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), Mário Semedo, assumiu que o país ganhou um novo estatuto internacional após a prestação heróica no Mundial 2026. Em entrevista à Lusa, o dirigente revelou que a meta passa agora por colocar as seleções nacionais de forma permanente nas fases decisivas das grandes competições.
"Sim, o objetivo é esse, estar sempre. Falhámos agora o CAN 2026, quando ninguém estava à espera", admitiu Semedo, apontando já baterias à qualificação para o CAN 2027, que arranca em setembro, onde vê Cabo Verde na linha da frente pelo apuramento. A fasquia subiu drasticamente depois de os Tubarões Azuis terem espantado o planeta na sua estreia em campeonatos do mundo, onde impuseram empates à Espanha (0-0) e ao Uruguai (2-2), e obrigaram a campeã em título Argentina a uma vitória suada por 3-2 no prolongamento dos dezasseis avos de final. Essa montra global, avisa o presidente, fará com que os adversários entrem em campo com uma motivação redobrada para vencer Cabo Verde.
Para capitanear o ciclo que mira também o Mundial 2030 (a disputar em Portugal, Espanha e Marrocos), Mário Semedo segura o timoneiro Pedro Brito "Bubista", cujo contrato foi renovado antes da viagem para os EUA. O dirigente reconhece que o técnico está altamente cotado e cobiçado no mercado de transferências, mas confia na continuidade e no processo de renovação da equipa através do "scouting", prometendo oportunidades para novos talentos que se destacaram recentemente nos amigáveis das FIFA Series, na Nova Zelândia.
No plano financeiro, o encaixe milionário obtido no Mundial terá destinos bem traçados: o desenvolvimento da formação e o fomento das provas internas. Ainda assim, o presidente desfez a ilusão de que as contas federativas estão recheadas de lucro fácil. "A FIFA não pagou tudo. As pessoas pensam que é só anunciar e [o dinheiro] já está nas contas da Federação. Não é verdade: recebemos milhões, mas temos milhões de despesas, também", desabafou, referindo-se aos elevados custos logísticos com viagens e estadas de toda a comitiva. O saldo final das contas deverá estar fechado até dezembro.
Olhando para o futuro do desporto no país, Mário Semedo urge a criação de uma lei-quadro que discipline e regule as escolas de futebol locais, evitando projetos sem critérios técnicos ou pedagógicos. Para este processo de modernização, o líder da FCF destaca os canais de cooperação privilegiados com a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e com congéneres fortes da região, como o Senegal e a Costa do Marfim.
Com a lição estudada de que "gerir as vitórias é, às vezes, mais complicado do que as derrotas", a estrutura cabo-verdiana vira agora agulhas para outro marco histórico imediato: a estreia absoluta da seleção feminina no CAN, que arranca a 26 de julho, em Marrocos. A comitiva liderada por Silvéria Nédio terá pela frente o Grupo D, num teste exigente contra as poderosas formações do Gana, Camarões e Mali.