Caracas, 09 jul 2026 (Lusa) — A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, enviou uma missiva oficial ao rei Carlos III de Inglaterra com um pedido urgente: a libertação das reservas de ouro venezuelanas que se encontram retidas em Londres. O governo de Caracas pretende canalizar estes fundos de forma imediata para os esforços de assistência e reconstrução do país após os recentes sismos.
"Esse ouro é do nosso povo e deve servir para enfrentar as consequências terríveis e trágicas deste duplo sismo", declarou a governante numa intervenção transmitida pelos canais da televisão estatal VTV. Delcy Rodríguez aproveitou o momento para renovar as críticas à comunidade internacional, exigindo o levantamento imediato das sanções económicas e o desbloqueio de património financeiro essencial para estabilizar o mercado de trabalho, reerguer a economia e apoiar o setor da educação.
A ofensiva diplomática estende-se também às grandes instituições financeiras globais. A presidente interina confirmou ter reunido na passada terça-feira com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, com o mesmo propósito de reaver capitais congelados. "A Venezuela tem recursos para se recuperar e para se levantar", vincou. Em causa estão ativos de grande valor financeiro, que incluem cerca de 2.000 milhões de dólares em barras de ouro à guarda do Banco de Inglaterra e a gestão da Citgo, a filial norte-americana da petrolífera estatal PDVSA.
A pretensão do executivo venezuelano ganhou um aliado de peso na cena internacional. O coordenador dos assuntos humanitários da Organização das Nações Unidas (ONU), Tom Fletcher, defendeu publicamente que as sanções aplicadas ao país devem ser suavizadas face à catástrofe natural. Durante uma visita de avaliação à duramente atingida região de La Guaira, nas imediações da capital, Fletcher alertou para um cenário financeiro "muitíssimo difícil", estimando que os sismos possam custar uma quebra drástica de vários pontos percentuais no Produto Interno Bruto (PIB) da Venezuela.
As mais recentes atualizações oficiais, divulgadas esta quarta-feira, apontam para um balanço trágico de 3.811 vítimas mortais e 16.740 feridos, na sequência dos fortes terramotos de magnitude 7,2 e 7,5 que abalaram o país a 24 de junho. A catástrofe continua a pesar sobre a comunidade portuguesa fixada em território venezuelano: os dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal confirmam a morte de 100 cidadãos nacionais e lusodescendentes, mantendo-se ainda o rasto perdido de 59 pessoas.