Seul, 09 jul 2026 (Lusa) — Os governos de Seul e de Kiev fecharam um entendimento esta quinta-feira para garantir que a "vontade soberana" de dois militares norte-coreanos capturados pelas forças ucranianas seja plenamente respeitada. A decisão abre caminho para que os dois homens fujam ao regime de Kim Jong-un e sejam transferidos para a Coreia do Sul.
O anúncio foi formalizado pela porta-voz da presidência sul-coreana, Kang Yu-jung, após uma reunião bilateral entre os líderes dos dois países, que decorreu em Ancara à margem da cimeira da NATO. "Acordaram resolver a questão dos prisioneiros de guerra norte-coreanos na Ucrânia de forma compatível com o direito internacional e os princípios humanitários, respeitando a livre vontade das partes envolvidas", clarificou a responsável.
Os dois combatentes em causa foram feitos prisioneiros no início de 2025 pelas tropas de Kiev, numa altura em que operavam integrados nas frentes russas na disputada região de Kursk. Desde então, através de cartas tornadas públicas e de entrevistas à imprensa sul-coreana, expressaram convictamente o desejo de não regressar à Coreia do Norte. Em sentido oposto, Moscovo tem feito forte pressão nos bastidores, exigindo a inclusão destes soldados nos habituais acordos de troca de prisioneiros com a Ucrânia.
O desfecho do caso mereceu aplauso de várias Organizações Não Governamentais (ONG), como a Human Rights Watch, que já tinham acionado alertas internacionais invocando o princípio da não devolução. De acordo com os analistas, uma extradição forçada para a Coreia do Norte resultaria, quase de forma certa, em tortura, trabalhos forçados ou execução por traição.
Do ponto de vista legal, o executivo sul-coreano lembra que a sua própria Constituição reconhece qualquer cidadão nascido no norte da península como cidadão de pleno direito da Coreia do Sul, o que valida a legitimidade do acolhimento. Ainda assim, a medida acarreta um forte risco geopolítico para a diplomacia do presidente sul-coreano Lee, cuja política de aproximação e redução de tensões com Pyongyang poderá sofrer um rude golpe se a Coreia do Norte interpretar o resgate destes soldados como um ato de hostilidade.