Maputo, 08 jun 2026 (Lusa) — O Cine-Teatro Scala, uma das salas de espetáculos mais emblemáticas e antigas de Moçambique, lançou um apelo à cooperação e ao investimento com os olhos postos em 2031, ano em que celebrará o seu centenário. Classificado como património histórico da cidade de Maputo, o espaço luta diariamente contra o desgaste material para se manter como um polo vivo de cinema, teatro e dança.
Construído em 1931 na emblemática baixa da capital, o edifício conserva a sua arquitetura original de estilo Art Déco e carrega o título histórico de ter sido a primeira sala de projeção a dar som ao cinema no país. Gerido desde 2015 pela Associação Cultural Scala, o recinto tem uma lotação máxima para cerca de mil espectadores e assume-se como um guardião da memória coletiva e da história oral moçambicana.
Um dos grandes cavalos de batalha da gerência prende-se com os hábitos de consumo das novas gerações, cada vez mais focadas nos ecrãs individuais. "Os nossos jovens perderam o hábito de ir ao cinema", lamentou à Lusa a presidente da associação, Marieta Manjate, que procura reverter esta tendência promovendo o Scala como um ponto de partilha e debate.
A estratégia tem dado frutos. Iniciativas regulares como o projeto "Cine das Quintas" — focado em produções nacionais com bilhetes bonificados para estudantes — atraem entre 100 a 150 pessoas por sessão. O otimismo da equipa cresceu após uma recente mostra internacional, realizada em maio com o apoio de várias embaixadas, que esgotou por completo a plateia e o balcão. "Para nós foi uma alegria e tanto, mostra que as coisas estão a voltar devagar", assumiu a responsável, desmistificando a ideia de que a sala abandonou o circuito comercial.
Apesar do fôlego renovado na bilheteira, a sustentabilidade técnica do Scala a médio prazo está em risco. O edifício precisa de uma intervenção profunda que inclua a substituição do piso, o restauro das cadeiras originais, a modernização dos sistemas de som e iluminação, e a instalação de uma nova tela de projeção.
O Scala conta atualmente com uma verba reduzida atribuída pelo Instituto Nacional das Indústrias Criativas para pequenos arranjos, mas os montantes globais recolhidos junto de parceiros institucionais e embaixadas continuam a ser manifestamente insuficientes para uma obra desta envergadura.
Embora não exista ainda um orçamento final fechado para as obras de conservação, a associação recusa descaracterizar a traça histórica da sala. O objetivo para os próximos cinco anos passa por cruzar a meta do século de existência com uma infraestrutura modernizada e digna, capaz de fixar o Scala no roteiro cultural obrigatório de Moçambique.