Lisboa, 16 jul 2026 (Lusa) — O chefe do Governo de coligação assume hoje o palco no Parlamento para dar o pontapé de saída no debate sobre o Estado da Nação. Espera-se uma sessão altamente tensa, dominada pelo atraso histórico na publicação das notas dos exames nacionais e pelo fogo cruzado sobre o ministro da Administração Interna, Luís Neves.
A discussão plenária, que se estenderá por cerca de quatro horas, arranca com uma intervenção de Luís Montenegro de até 30 minutos. O primeiro embate da tarde caberá ao Chega, o partido que mais tem fustigado o Executivo nas últimas semanas e que agora lidera a segunda maior bancada da Assembleia da República, seguido pelos restantes quadrantes políticos.
No centro da tempestade estão as falhas operacionais na estreia do modelo digital para a classificação das provas físicas. O incidente forçou o Ministério da Educação a adiar a divulgação das pautas para sexta-feira, desencadeando pedidos de inquérito parlamentar e um debate de urgência com o ministro Fernando Alexandre. Montenegro já garantiu que mantém a confiança política no seu ministro e, embora tenha admitido eventuais falhas nos serviços, atirou também à "resistência" de uma parte dos docentes. "O país tem de perder o medo de falhar", defendeu ontem o primeiro-ministro, assegurando que o Governo continuará a arriscar na modernização.
No plano da ética e da segurança, o Chega promete fazer barulho com o caso de Luís Neves. O ministro da Administração Interna está sob fogo não só pelas alegadas ameaças dirigidas a André Ventura, mas também pelas suspeitas de favorecimento na contratação privada de um empreiteiro que prestava serviços à Polícia Judiciária quando Neves liderava a instituição.
O debate acontece num contexto de fragilidade parlamentar para a AD, cerca de um mês após o chumbo em bloco da sua reforma laboral — onde o Chega se aliou à esquerda após ver recusada a exigência de baixar a idade da reforma. Num Parlamento onde governa sem maioria absoluta (com 91 deputados), Montenegro tem navegado em águas difíceis, acusando frequentemente o PS e o Chega de formarem uma "coligação negativa" para chumbar as reformas do Governo.
Na vertente financeira, e ao contrário do ano passado — em que o debate serviu de rampa de lançamento para o anúncio de bónus nas pensões e cortes no IRC —, o tom de 2026 é de maior cautela. Com o Orçamento do Estado pressionado pelos estragos das tempestades do início do ano e pela crise no Médio Oriente, o Ministério das Finanças ainda avalia se haverá margem orçamental para novas ajudas aos pensionistas, num ano em que o Executivo tem como meta um saldo orçamental equilibrado de 0% do PIB.