Numa altura em que o debate sobre a crise da habitação e a reformulação das leis do arrendamento ganha novo fôlego político, um levantamento recente aos dados patrimoniais veio colocar o foco nos próprios decisores. Os membros do Governo e os deputados de vários partidos com assento parlamentar — nomeadamente PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS-PP — acumulam, em conjunto, mais de mil imóveis sob a forma de habitações, terrenos e outras propriedades.
Os dados, extraídos das declarações de rendimentos entregues pelos titulares de cargos públicos, mostram que uma parcela significativa destes responsáveis acumula o estatuto de legislador com o de senhorio ou investidor imobiliário. Além do número expressivo de propriedades, que no total ultrapassa a fasquia de um milhar e está avaliado em dezenas de milhões de euros, foram também declarados avultados rendimentos prediais que ascendem a centenas de milhares de euros anuais. Vários governantes e parlamentares possuem ainda participações diretas em empresas dedicadas ao setor imobiliário.Esta concentração de património imobiliário entre os decisores políticos surge num momento particularmente sensível. O Parlamento prepara-se para discutir e votar alterações legislativas estruturais que pretendem dar maior margem de manobra aos senhorios e remodelar o mercado de arrendamento em Portugal.
A revelação alimenta o debate público e adensa as discussões em torno da transparência institucional e da potencial sobreposição de interesses na definição de políticas públicas que afetam diretamente o dia a dia e o orçamento das famílias portuguesas.
Fonte - Público