Harare, 08 jun 2026 (Lusa) — O agravamento da violência xenófoba e das perseguições na África do Sul forçou o Zimbabué a iniciar o repatriamento dos seus cidadãos. Um primeiro contingente, composto por 74 pessoas, cruzou a fronteira este domingo e já se encontra em território nacional, após uma operação de emergência articulada pelas autoridades diplomáticas de Harare.
A viagem de regresso foi feita por via rodoviária, tendo os autocarros entrado pelo posto fronteiriço de Beitbridge. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Zimbabué, Amon Murwira, garantiu que a embaixada em Pretória mantém um acompanhamento rigoroso da situação de segurança, tendo aconselhado todos os zimbabueanos em situação de risco a solicitarem proteção e apoio para a evacuação. Antes do reencontro com as respetivas famílias, este grupo inicial está a receber apoio técnico e psicológico dos serviços de Ação Social.
A atual vaga de hostilidade tem sido alimentada por movimentos ultranacionalistas e anti-imigração sul-africanos. Através de manifestações violentas, estes grupos culpam os imigrantes sem documentos pelo desemprego, pela degradação dos serviços públicos e pelo crime. A tensão escalou substancialmente após a imposição de um ultimato para que os estrangeiros abandonem o país até 30 de junho, com relatos de agressões e do bloqueio ilegal ao acesso de imigrantes a escolas e hospitais.
A gravidade da situação já desencadeou reações em cadeia por todo o continente, com o Gana a solicitar formalmente uma intervenção e uma comissão de inquérito à União Africana. Outros governos estão também a retirar os seus nacionais a ritmo acelerado: Moçambique lidera a operação mais vasta, tendo já retirado 714 cidadãos (incluindo 169 que chegaram este domingo), enquanto o Gana e o Maláui já resgataram centenas de pessoas. Paralelamente, a Nigéria tem mais de 130 pedidos de repatriamento pendentes e, tal como a Guiné-Bissau, chamou o embaixador sul-africano para consultas, ao passo que o Quénia e o Lesoto emitiram avisos urgentes de segurança.
A África do Sul serve atualmente de abrigo a cerca de três milhões de imigrantes, sendo que 90% provêm de outros estados do continente africano. Embora o Presidente Cyril Ramaphosa e o seu Governo tenham condenado publicamente as agressões, a tutela insiste que mantém a legitimidade para avançar com operações policiais de combate à imigração ilegal. Este cenário de ódio e exclusão social é crónico nas periferias e bairros mais pobres das grandes cidades sul-africanas, tendo a pior crise recente ocorrido em 2019, num surto de violência que, segundo dados da Human Rights Watch, resultou no homicídio de 18 cidadãos estrangeiros.