Lisboa, 15 jun 2026 (Lusa) — A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) prestou assistência a 8.540 cidadãos seniores vítimas de crimes e violência entre os anos de 2021 e 2025. O balanço, apresentado esta segunda-feira pela instituição, revela que, em média, cinco idosos foram acolhidos ou acompanhados diariamente ao longo do último quinquénio.
Os indicadores estatísticos da associação apontam para uma tendência preocupante de agravamento, traduzida num crescimento de 26,5% no volume de idosos apoiados entre o início e o fim do período em análise. No total, a intervenção da APAV serviu para dar resposta a 15.804 crimes e episódios de maus-tratos direcionados a esta faixa etária.
A violência doméstica destaca-se, de forma esmagadora, como a tipologia criminal mais reportada, estando na origem de 78,9% dos processos acompanhados (o equivalente a 12.465 ocorrências). À grande distância surgem as situações de ameaça ou coação (3,7%), as ofensas à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e os crimes de burla (2%).
O retrato traçado pela APAV revela que as mulheres continuam a ser as principais vítimas deste flagelo, representando 76,3% dos utentes apoiados, com maior incidência na faixa etária entre os 65 e os 74 anos (49,4%). Em termos de perfil de quem agride, mais de metade dos agressores são homens (55,9%) e pertencem à faixa etária ativa dos 25 aos 64 anos (29,8%).
Os dados reforçam ainda a natureza íntima e intrafamiliar deste tipo de criminalidade. Na maioria esmagadora das vezes, a violência ocorre em ambiente doméstico, sendo os filhos os principais agressores (32,3% dos casos), seguidos de perto pelos cônjuges (21,5%).
Outro dado alarmante prende-se com a cronicidade do abuso: 53,6% dos idosos enfrentavam um cenário de vitimação continuada, sendo que quase um quarto (23,4%) tolerou agressões consecutivas durante um período de dois a seis anos antes de conseguir quebrar o silêncio e pedir ajuda profissional.
Apesar da gravidade, a invisibilidade do problema persiste, uma vez que 46,6% das vítimas não chegou a formalizar queixa nem viu o seu caso ser denunciado às forças de segurança. A APAV sublinha a urgência de reforçar os mecanismos de prevenção, diagnóstico precoce e apoio especializado, sensibilizando a comunidade para proteger uma franja da população particularmente vulnerável.