Lisboa, 11 jul 2026 (Lusa) — O diretor executivo da Casa da Arquitetura, Nuno Sampaio, avisou que Portugal enfrenta a necessidade urgente de investir fortemente na reestruturação dos seus edifícios e espaços urbanos. Em entrevista à Lusa, o especialista sublinhou que as cidades atuais não possuem defesas adequadas para salvaguardar a população perante cenários de calor extremo.
Para mitigar o problema, o arquiteto sugere medidas drásticas, tais como a substituição de lugares de estacionamento automóvel por corredores arborizados e a criação de pala de sombra e áreas de descanso pedonais. Nuno Sampaio defende ainda intervenções profundas no edificado antigo e uma revisão do atual enquadramento legal, que classifica como um emaranhado burocrático que bloqueia a inovação e assume um papel “castrador da criatividade” dos projetistas.
"Isto vai tardar muitos anos, porque as cidades já foram feitas com determinados pressupostos", reconheceu o curador da Bienal de Arquitetura Ibero-Americana. O evento, que decorrerá em novembro na cidade de Brasília, colocará a crise climática no centro do debate, a par de temas fulcrais como a crise da habitação, a gestão da água e o envolvimento comunitário.
Recorrendo ao exemplo de Barcelona — que acolheu recentemente o Congresso Mundial dos Arquitetos sob o mote "Arquiteturas para um Planeta em Transição" —, Nuno Sampaio recordou que a metrópole espanhola plantou um milhão de árvores para proteger os peões do sol direto e arrefecer as fachadas dos prédios. Para o especialista, criar pequenos jardins de proximidade e plantar árvores massivamente é uma questão de segurança pública, evitando que as famílias sejam empurradas para fora de casas sobreaquecidas.
O arquiteto alertou também para o reverso da medalha climática: as tempestades severas. Com a elevada impermeabilização das ruas portuguesas, o escoamento falha, elevando o risco de tragédias semelhantes às enxurradas que provocaram 92 mortes em Valência no ano de 2024. A resposta passa por investir em comunidades energéticas locais e repensar as coberturas dos prédios. Olhando para a vulnerabilidade da ribeira do Porto, historicamente fustigada por cheias cíclicas, defende que os telhados devem ser convertidos em refúgios verdes e zonas de lazer seguras.
No entender de Nuno Sampaio, a própria fisionomia dos prédios terá de evoluir, apostando-se em palas e estruturas de quebra-sol (brise-soleil) em detrimento de fachadas totalmente envidraçadas, que captam demasiado calor.
Em Portugal, o problema é agravado pelo vasto parque imobiliário erguido entre as décadas de 60 e 80. O arquiteto atribui as patologias destes edifícios à herança de um decreto-lei de 1963, do tempo do Estado Novo, que permitia a profissionais de outras áreas — como engenheiros de minas — assinar projetos residenciais. "Há um esforço que o país precisa de fazer para transformar esses milhares de edifícios que hoje não estão preparados, não têm capacidade de defender as pessoas que lá vivem de calores extremos", rematou, lembrando, com ironia, a época em que os espaços eram tão mal planeados que, para fechar a porta de uma casa de banho, "quase tinha de se subir para cima da sanita".