Maputo, 28 de junho de 2026 (Lusa) — A Organização Não-Governamental (ONG) moçambicana Decide emitiu um sinal de alerta face ao forte ceticismo dos cidadãos em relação ao Diálogo Nacional Inclusivo. Apesar de a iniciativa ter registado uma adesão em larga escala, com mais de 50 mil participantes entre os meses de março e maio, a população duvida da eficácia do processo.
"Apesar da forte visibilidade pública, a monitoria digital identificou elevados níveis de desconfiança pública relativamente à capacidade do processo de produzir reformas concretas e estruturalmente transformadoras", aponta o relatório preliminar da referida plataforma de monitorização eleitoral, ao qual a agência Lusa teve acesso este domingo.
A Comissão Técnica para o Diálogo Nacional Inclusivo (Cote) foi estabelecida em 2025, na sequência do pacto de pacificação desenhado para estancar a crise pós-eleitoral no país. Ao longo de um mandato de dois anos, este órgão tem a responsabilidade de desenhar propostas estruturais para a reforma do Estado, englobando a revisão da Constituição, a descentralização do poder administrativo, a reconciliação nacional e a garantia de forças de segurança de cariz apartidário.
A análise da ONG detalha que a segunda fase de consultas públicas conseguiu uma cobertura geográfica e social de relevo. A província de Manica, na região centro de Moçambique, assumiu o protagonismo das sessões, mobilizando 18 postos administrativos e registando médias acima dos três mil participantes por assembleia. No entanto, o envolvimento das forças partidárias ficou aquém do esperado: enquanto 24 entidades da sociedade civil submeteram contributos à Cote, apenas um partido político, a Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), formalizou propostas.
O relatório da plataforma Decide sublinha que este desinteresse partidário, aliado à "persistência de elevados níveis de desconfiança", coloca em risco a sustentabilidade das decisões. O termómetro das redes sociais revela que os moçambicanos estão apreensivos. "Entre os comentários mais frequentes nas plataformas digitais destacam-se preocupações relacionadas com a inclusão efetiva dos principais atores políticos, credibilidade institucional, transparência do processo, implementação futura das reformas e continuidade das detenções e tensões pós-eleitorais", clarifica o documento.
A ONG conclui que Moçambique enfrenta uma janela de oportunidade histórica para consolidar a sua democracia e reconstruir as pontes de confiança com o eleitorado. Todavia, deixa um aviso severo: se este processo de auscultação falhar na entrega de resultados práticos e palpáveis, o sentimento de frustração social vai agudizar-se, fragilizando ainda mais o respeito pelas instituições democráticas do país.