Apesar do reforço orçamental e do aumento do número de profissionais, o Serviço Nacional de Saúde encerrou o ano de 2025 com indicadores críticos: listas de espera mais longas, menos cirurgias e um buraco financeiro que ascende aos 2,7 mil milhões de euros.
O mais recente relatório da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) traça um retrato negro da saúde pública em Portugal. Contrariando as promessas governamentais de maior eficiência, o SNS fechou o ano de 2025 com uma performance inferior à de 2024 em quase todas as frentes assistenciais, apresentando simultaneamente contas "no vermelho".
O paradoxo dos números
O documento revela um cenário contraditório: os hospitais e centros de saúde receberam uma injeção de 13 mil milhões de euros (uma subida de 5,3%) e contam com mais 1,3% de médicos e 2,5% de enfermeiros. No entanto, o aumento de recursos não se traduziu em maior produtividade:
Cirurgias: Registou-se uma quebra de 0,7% nas intervenções realizadas.
Listas de Espera: O número de doentes a aguardar cirurgia subiu para cerca de 268 mil (um salto de 3,3%).
Consultas: As primeiras consultas hospitalares caíram 1,8%, e a lista de espera para uma especialidade disparou 13,6%, superando a barreira de 1,1 milhões de pessoas.
Foco geográfico e o "caso" de Santa Maria
A degradação é particularmente visível em unidades específicas. A Unidade Local de Saúde (ULS) de Barcelos lidera o agravamento das listas cirúrgicas, com um aumento de quase 50%. Seguem-se o Amadora-Sintra e o Hospital de Santa Maria — este último com mais de 12.600 doentes à espera de operação, num ano marcado por polémicas em torno de remunerações extraordinárias de profissionais.
Cuidados Primários e Gestão Financeira
Nos centros de saúde, a situação não é mais animadora. O número de portugueses sem médico de família subiu para 1,6 milhões, representando um aumento de 2,7% face ao ano anterior. O relatório destaca ainda que metade das consultas agendadas ultrapassa o Tempo Máximo de Resposta Garantido por lei.
No plano financeiro, o SNS enfrenta uma tempestade: o prejuízo acumulado de 2,7 mil milhões de euros é acompanhado por uma dívida de 1,4 mil milhões, que cresceu 11% num só ano.
O único sinal positivo
O único indicador que registou uma melhoria foi a afluência às urgências, que caiu 9,5% (para 5,5 milhões de episódios). Este decréscimo é atribuído às novas regras de triagem e ao incentivo ao uso prévio da Linha Saúde 24, sugerindo uma maior literacia dos utentes no acesso ao sistema, apesar do colapso nas restantes áreas.
Fonte- CNN Portugal